O contato chega por WhatsApp. A foto do perfil é a do advogado verdadeiro, o nome é o do advogado verdadeiro, e a mensagem menciona dados reais do processo: número, vara, valor da causa. A notícia é boa e urgente: o processo foi julgado, o alvará foi expedido, o dinheiro será liberado hoje. Só falta uma providência: o pagamento de uma taxa, uma custa judicial, um imposto de liberação. E é nesse momento que a vítima, convencida de que fala com o próprio advogado, transfere o dinheiro para uma conta criminosa.
Esse é o golpe do falso advogado, uma das fraudes de crescimento mais acelerado no país, e sua eficácia tem uma explicação simples: ele é construído sobre dados verdadeiros. Processos judiciais são, em regra, públicos. Qualquer pessoa consegue consultar movimentações, nomes das partes e dos advogados. O criminoso não precisa inventar nada. Ele apenas veste a identidade de alguém em quem a vítima já confia.
O caso: uma vítima do Rio de Janeiro
Chegou ao escritório o caso de uma pessoa do Rio de Janeiro vitimada exatamente por esse roteiro. Ela possuía processo em andamento patrocinado por outro profissional e foi abordada por criminosos que se apresentaram em nome do advogado da causa, reproduzindo dados reais do processo e explorando a expectativa legítima de recebimento. Não havia, na relação entre aquela vítima e seu patrono, qualquer protocolo de verificação de contatos, qualquer regra prévia sobre pedidos de pagamento, qualquer canal de confirmação. A vítima não tinha como distinguir o falso do verdadeiro, porque nunca lhe haviam dado os instrumentos para isso. O prejuízo se consumou, e o caso passou a exigir atuação em duas frentes, a criminal, para a persecução dos autores, e a cível, para a busca de recomposição patrimonial pelas vias possíveis.
Registre-se com todas as letras: a falha aqui não é moral, não é da vítima e não é, individualmente, de nenhum profissional. É uma falha sistêmica de um mercado que ainda não incorporou protocolos de segurança comunicacional como padrão. O golpista prospera no vácuo de protocolo.
Os sinais que denunciam o golpe
Alguns padrões se repetem em praticamente todas as abordagens. Urgência artificial (tudo precisa ser resolvido em horas, de preferência antes que você consiga confirmar). Pedido de dinheiro por mensagem, sempre travestido de taxa, custa, honorário de liberação ou imposto. Mudança de número ("estou usando outro telefone"). Pressão emocional calibrada sobre a expectativa da vítima. E resistência agressiva quando a vítima propõe confirmar por outro canal.
Como se proteger
A regra de ouro cabe em uma frase: recebeu mensagem pedindo dinheiro em nome do seu advogado, não pague e confirme por outro canal, ligando para o número que você já tinha, ou comparecendo ao escritório. Advogado sério jamais se ofenderá com a checagem. Além disso, a inscrição de qualquer advogado pode ser verificada gratuitamente no Cadastro Nacional dos Advogados, mantido pelo Conselho Federal da OAB. E lembre-se: a Justiça não libera valores mediante pagamento antecipado de taxa por PIX. Essa mecânica, em si mesma, já é a assinatura do golpe.
Foi para fechar essa porta que estruturamos internamente um protocolo antigolpe que rege toda a comunicação do escritório com seus clientes, tema que tratamos em artigo próprio. Se você foi vítima de fraude dessa natureza, procure orientação jurídica imediatamente. A rapidez da reação influencia diretamente as chances de responsabilização e de recuperação.